POLICIAIS NÃO SÃO MÁQUINAS DE SEGURANÇA

Dentre os assuntos tratados pela mídia a partir da divulgação do
Anuário de Segurança Pública de 2013, destaco um ainda não tratado: a
pessoa do policial. Não falo dos policiais corruptos que cruzam a linha
tênue entre o crime e sua coerção. Refiro-me à maioria dos 675.996
policiais do país.
Desde o ano de 1997 estudamos as condições de
vida, trabalho e saúde dos policiais civis e militares, na hipótese de
que seu bem estar contribui para a segurança da sociedade. A lógica do
Estado democrático repousa sobre a coesão e a coerção social, e a
polícia, no mundo inteiro, foi criada para manter esse equilíbrio. Sua
missão é exercer o monopólio da violência física legítima em nome do
Estado, substituindo a prática da justiça pelas próprias mãos.
A Constituição Brasileira também atribui à polícia o nobre papel
de proteger a sociedade, prevenir o crime e investigar os malfeitos que
corroem a vida social. Apesar dessa missão indispensável, a polícia no
Brasil sempre foi desprezada e cobrada mais do que deveria. Quando há um
contexto conflituoso e convulsionado como o que ocorre desde junho de
2013, o endurecimento policial, cujo efeito funesto para a coesão social
é conhecido, sempre acaba sendo reforçado. Poucos perguntam os motivos
que provocam as desordens. Falta consciência de que ordem e desordem são
coproduções, nas quais instituições de segurança têm o papel tão
importante como as populações com as quais se confrontam.
Policiais não são máquinas de produzir segurança: enfrentam situações de
risco que os levam à morte e a lesionar-se em proporções muito mais
altas do que a população civil; suas jornadas são exercidas em condições
adversas e extenuantes; existe insuficiência de servidores para a
quantidade de serviço; e seus equipamentos de trabalho e proteção muitas
vezes são impróprios e inadequados.
Nossos estudos e
outros mostram que a dignidade prévia de que os policiais se investem
pelo papel essencial de poder de Estado não se sustenta quando inexistem
condições suficientes para exercê-las. As pesquisas realçam o mal que
lhes fazem a insatisfação, a ansiedade e a falta de reconhecimento. A
impossibilidade de expressar e ver acolhido seu sofrimento acabam se
transformando em adoecimento e comorbidades como problemas gastrointestinais, disfunções cardíacas insônias, irritação, depressão e
outros agravos físicos e mentais. Mas, mesmo enfrentando desvalorização
profissional, a maioria gosta do que faz: seu papel social entranha
tanto sua identidade que chega a definir o que são, como agem, como
pensam.
Assim, contra os que colocam na conta dos
policiais todos os problemas de segurança pública, minha intenção é
suscitar uma reflexão social sobre a necessidade de reconhecimento do
seu papel e do valor de sua contribuição. Policiais são homens e
mulheres que, como nós, sofrem, amam, desejam, têm medo, mas arriscam
sua vida para nos proteger.
(Maria Cecília de Souza Minayo – Pesquisadora da Fiocruz)
Fonte: Jeferson Morais
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